E o Underground?

Texto originalmente publicado para a Revista SKot #1, no ano de 2015.

Quando fui convidado pelos editores da revista para escrever sobre o movimento underground, confesso que fiquei receoso pra escrever sobre um assunto tão controverso, já que por deveras vezes os conceitos e definições do que é o movimento underground são alvos de diferenças e distorções.

Esse negócio de “underground e comercial” eu confesso: é coisa de gente que gosta de rótulos e aqui estou eu usando o ato de rotular como sinônimo de classificar, etiquetar, nomear. Se você interpretar como sinônimo de mal julgar, mal dizer ou acusar, vai acabar perdendo a intenção deste “textinho”.

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Pensando nisso, eu também me questionei: o que é, de fato, ser underground?

Considerando que vivemos em sistemas sociais, a identificação do ser, não deixa de ser sua autoafirmação, a sua manifestação de pensamento. Sendo assim, classificar as coisas, defini-las, caracterizá-las, faz parte da nossa essência como ser humano.

Desta forma, essa coisa de rotular, não passa de uma questão “formal”, onde nos diferencia até certo ponto, mas não como um todo.

Dito isso, vamos aos rótulos:

“Underground (“subterrâneo”, em inglês) é uma expressão usada para designar um ambiente cultural que foge dos padrões comerciais, dos modismos e que está fora da mídia. Também conhecido como Cultura Underground ou Movimento Underground, para designar toda produção cultural com estas características, ou Cena Underground, usado para nomear a produção de cultura underground em um determinado período e local.

A Cultura Underground pode estar relacionada a produção musical, as artes plásticas, a literatura, ou qualquer forma de expressão artística da cultura urbana contemporânea. A expressão “deixou o underground”, ou “saiu do underground”, refere-se a artistas ou movimentos que tornaram-se populares e adquiriram notoriedade do grande público, entrando para o chamado  

Existe uma máxima de que “dinheiro é bom e todo mundo gosta”. Significa dizer que todo o ciclo de seres que existe no universo das Raves, em algum momento, se rende ao dinheiro. Sendo assim, seria superficial querer classificar uma coisa como “underground ou comercial”, unicamente pelo fator financeiro. Pra mim, o centro da questão gira mais em torno da paixão e do respeito à história e ideais do movimento.

Pois bem, ocorre que – no que diz respeito ao Psytrance nacional – nos últimos anos sentimos uma “massificação” das festas e da música em geral. Em uma visão mais ampla, parece que dentro de um movimento, que é underground por natureza, existem segmentos que se renderam ao mainstream, gerando uma série de coisas negativas, mas também, algumas positivas.

Como fator positivo, vejo, mais do que nunca, que o Brasil virou ponto de parada dos melhores artistas do mundo, sendo referência no estilo, além de impulsionar os nossos grandes talentos. Vejo, uma base muito grande de pessoas que vivem e respiram o Psytrance, graças a popularização do movimento. Já como fator negativo, vejo a banalização da música, com exemplos de tracks que mais parecem uma marcha de carnaval. Percebo, também como fator negativo, que o uso abusivo e desrespeitoso de substâncias psicoativas acabam por ‘queimar’ um movimento tão belo e ímpar, além dos problemas típicos do Brasil, quando há um grande acumulo de pessoas.

Os fatores não são exaustivos, sendo que o leitor ao fazer uma autoanálise da cena onde vive encontrará vários outros. Um fato inegável é que o Psytrance é para todos, mas nem todos são para o Psytrance!

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No sul do Brasil, região onde moro e ajudo diretamente a movimentar o que chamamos de “cena” underground, existem núcleos sérios, de amor ao Psytrance e toda a sua cultura. Estes núcleos ainda trabalham à margem do comercial, levando arte, sabedoria milenar e muito, mas muito psytrance de qualidade, por onde são produzidas suas festas.

Nosso sul é celeiro de grandes DJs sets e lives renomados. Em Santa Catarina, por exemplo, temos uma dupla relativamente nova, que se intitula Underlevel, que traz um som de qualidade com um pegada diferenciada. Temos também o renomado Stereo Plug que no último ano andou se renovando e está com um live de altíssima qualidade. Já no Rio Grande do Sul, existem lives como Twelve Sessions e Technology que são referências em seus estilos, lançando diversas tracks por renomadas gravadoras, além de um projeto novo, muito promissor, intitulado Klipsun (guardem este nome). A lista de artistas é enorme e não só de lives, mas também muitos DJ’s Sets “cascas grossas”.

Falo isso pra provar que, mais do que nunca, o movimento underground tem crescido e não só em quantidade, mas principalmente, em qualidade. O Psytrance de verdade, aquele de amor à história e cultura, está mais vivo do que nunca. Ainda assim o momento exige cuidado.

Essa nova geração, sedenta por tudo, merece uma atenção e um direcionamento especial, pois em grandes polos do país a história tem mostrado que quando falta base o movimento acaba distorcido e usado para meios escusos.

A responsabilidade de artistas, produtores e público é grande, mas quando o amor pelo Psytrance fala mais alto, acredito eu, que as coisas fluem naturalmente para o bem! Depois de toda essa divagação, você, leitor, pode querer se indagar, “e ai? E o underground?” Mais do que nunca, ele ainda resiste!