Chris Dyer: arte visionária em forma de criações positivas

Chris Dyer é um dos nomes que ressoa forte quando o papo é sobre a nova geração de artistas visionários. Sua arte se caracteriza por desenhos vibrantes com componentes espirituais e lembranças de culturas ancestrais, que se misturam com elementos urbanos, relativos ao skating e ao surfing. Essa inesperada fusão, é a marca registrada do artista canadense, quem consegue colocar um toque divertido e descontraído, contrastando com o ar de solenidade que normalmente recobre a maioria das obras psicodélicas que vemos por aí.

Mas quem é Cris Dyer? Ele se considera um médium do “Grande Espírito”, um homem que procura se livrar da mente egóica, elevando a sua consciência através da introspeção. Nas suas próprias palavras ele é “uma alma com grandes intenções para a humanidade e para si mesmo, (…)  Um verdadeiro skatetista do espírito…, apesar de todas as quedas”.

Sempre buscando nos aprofundar e educar na cultura psicodélica, a crew do Trance.com.br foi atrás da primeira entrevista exclusiva do artista em português. Bem-vindo ao portal Chris, bem-vindo à família psicodélica brasileira!

C o m e ç o s

Como surgiu  Positive creations” ?

C.D : Sempre me expressei através da arte, é parte da pessoa que eu sou. Da mesma forma, sempre achei uma relação entre o espírito e o mundo material. Mas isso teve vários etapas e momentos de entendimento através da minha vida. Assim surge “Criações positivas” , que é um conceito que descreve as diferentes coisas que faco na minha vida. Pinturas, desenhos,  murais, esculturas, livros, vídeos, etc…tudo se encaixa dentro desse nome, é a minha marca pessoal.

“The Muncher of Mushroomland”

Você nasceu no Canadá, foi morar no Peru por mais de dez anos…hoje em dia já viajou mais de 35 países. De alguma forma, na tua arte se aprecia um forte componente cultural, como uma “pegada étnica”.  Você acha que isso é consequência de ter te mudado tanto e ter tido contado com a cultura incaica?

C.D : Eu amo viajar e aprender sobre todos os tipos de pessoas e sabores da cultura mundial, para assim me aprofundar no entendimento do que somos nesse mundo físico, onde nos expressamos de diferentes maneiras.  Eu gosto de misturar tudo isso na minha arte, para poder oferecer uma mensagem de união.  Crescer em Lima (Peru), foi muito bonito, mas também foi difícil. As culturas incaicas e pre-incaicas são muito interessantes, mas só comecei a entender e apreciá-las depois de conhecer outras culturas mundiais e era capaz de compará-las.

“Bromance” – Chris Dyer & Randal Roberts

“God of healing”

Existiu algum momento na sua vida de decisão consciente de virar um profissional? De você olhar no espelho e dizer: “Ok, eu vou viver da arte mesmo, é isso” …

C.D : Quando saí do Peru, aos 17 anos, já tinha claro que eu era um artista. Nesses tempos, eu desenhava comics sobre as aventuras dos meus amigos surfers.  Eu queria aprender a fazer animação para dar vida aos meus desenhos,  mas de alguma forma acabei fazendo artes plásticas. Logo percebi que poderia me expressar muito melhor através delas e tomei aulas por 7 anos, durante os quais aprendi diferentes técnicas. Dali nunca mais saí.

“Moment of truth”

F o r m a ç ã o   e   d e s e n v o l v i m e n t o   a r t í s t i c o

Você teve mestres o fontes específicas de inspiração durante esses anos de busca artística e auto-conhecimento?

C:D : Sim, teve diversos professores na universidade, uns muito bons, outros ruins… Ainda hoje, as vezes faço workshops com artistas que admiro. A lista de artistas que me inspiraram e inspiram é muito longa, mas destaco Jim Phillips (um dos primeiros artistas de Santa Cruz Skateboards) e Mati Klarwein (pintor autor da capa de Santana Abraxas).


“Skateboard spirituality” 

A t u a l i d a d e

Chris Dyer / Positive Creations tem virado uma marca polifacetada e empreendedora. Além de pinturas, hoje podemos ver a sua arte em muitos outros materiais como tecidos. Como surgiu a ideia de trabalhar também com vestuário?

C.D : Sempre gostei de ropa skater e surfer, e quando a minha arte começou a chegar nas pessoas, tive diferentes propostas para criar a minha própria marca de vestuário.  Desde o 2003, isso teve diversas encarnações, mas hoje em dia já está tomando uma forma mais definida, graças a ajuda de novas tecnologias que me fazem sentir que posso plasmar todo o poder da minha arte no tecido.

As peças do vestuário da Positive Creations podem ser encontradas em diversos festivais do hemisfério norte, mas também estão disponíveis para venda na sua loja online, com preços que variam entre $ 39-60 USD. Além de roupa e quadros, o artista também estampa a sua arte psicodélica em uma longa lista produtos, dentre os quais se incluem bonés, tapetes de yoga, almofadas, pochetes e até hologramas!

Sendo umas das grandes novas referências em matéria de arte visionária…como você vive isso? Tem uma “agenda criativa” que te organiza por projetos ou eventos ou teu ritmo artístico é ditado pela tua inspiração? Como é um dia comum na vida de Chris Dyer?

C.D : A verdade que a minha rotina é muito variável, e um dia normal muda dependendo da missão. Pelo geral, a arte que faço é um espelho da forma na qual me sinto, das minhas metas o das coisas que sinto que tenho para dizer nesse momento. Porém faço trabalhos por encargos, como material gráfico ou murais, quem tem um objetivo próprio, que também me resulta divertido. Então acho que a resposta para essa pergunta é…meu dia é um balanço entre trabalhar no meus lenços, ministrar oficinas,  pintar um mural, fazer uma campanha gráfica de skate, filmar um vídeo, etc.

Murais.

“Eu evitei pintar murais no início, porque apesar de ser uma das primeiras coisas que chamou a minha atenção, meu irmão fazia grafiti e não queria entrar nesse lance de competição. Na época, em Montreal não tinha uma cena de skate art nem de de arte visionário…todos meus amigos faziam spray painting, então acabei experimentando. Me apaixonei e agora sou viciado! Porém, não me considero só um artista urbano, mas esse meio permite me expressar rapidamente em superfícies grandes e bonitas”- Declarações do Cris para The Creators Project, citadas em Creator Vis, depois de ser convocado para pintar no Ometeotl Festival 2016, no México.

No que você está trabalhando atualmente?

C.D : Agora (Agosto) ainda é verão aqui no hemisfério norte, então estou viajando muito para fazer meus eventos, onde faço pintura ao vivo em alguns festivais e ministro workshops, onde aproveito para pintar para mim mesmo. Também estou com alta demanda para pintar murais. Na verdade tenho diversas coisas que quero inserir em meu flow, mas meu tempo é bastante limitado.

“Moshka Master”

“Peelng bodies”

V i s ã o

Parece existir uma espécie de consenso sobre que toda arte psicodélica/visionária deriva da utilização  de substâncias que alteram o estado de consciências. Na tua opinião, quanto há de verdade nessa crença? E alguma vez sofreu preconceito por fazer este “tipo” de arte?

C.D: Eu acredito que a arte visionária é sobre o espírito e o mundo além da matéria. Muitos utilizam psicodélicos para chegar lá, e está bom, essa é a sua fonte. Mas no meu caso, eu prefiro usar a minha própria imaginação e linguagem para me expressar. Sim, de vez em quando consumo psicodélicos também, mas hoje só de forma cerimonial, ou seja, com uma intenção específica, não para adicionar visões as minhas criações, senão para curar.  Porque uma vez que estou mais limpo, consequentemente o que expresso será mais puro.  Mas as outras dimensões representadas na minha arte, surgem do meu entendimento sobre o mundo não material, não  sobre as drogas que consumo. Sinceramente não me importam os preconceitos dos outros, mas sim não acho nada legal que a arte visionária seja descalcificada ou reduzida como “arte de drogado” porque é muito mais que isso. É arte do espírito, e para isso não se precisa nenhuma droga.

“Apothesis of dualitrees” 

Pelo menos aqui, no sul de América, o interesse e o acesso da galera à drogas vem em aumento, se compararmos com dez ou quinze anos atrás. Como tudo, isso tem ventagens e desvantagens. Tem surgido diversos movimentos de despenalização e estão se abrindo espaços de debate sobre o potencial terapêutico de muitas substancias ainda com má reputação.  Mas o que antes era tabu, hoje é cool, tem se naturalizado o abuso e banalização de substancias muitos poderosas para a psique, em nome de uma busca, por vezes paradoxal, por uma consciência mais profunda..mas sem consciência! Como ator da cultura psicodélica, qual é a sua cosmovisão sobre isso?

C.D : Para começar, eu acho que as drogas-medicinas não deveriam ser ilegais. Ninguém deveria ir na cadeia por usar uma substância que altera seu próprio estado de consciência. Quando um governo torna ilegal uma substância, é justamente nesse momento que surge a ideia que quem ainda usa ela é “cool”, rebelde, etc. Uma medicina não deveria ser cool,  porque isso a transforma numa moda do e pró ego.  As substâncias por elas mesmas, são neutras: podem te ajudar ou fazer mau, dependendo do seu momento e da intenção que você tem usando ela. Pessoalmente gostaria que muita mais gente buscasse realmente sarar os traumas do peso da vida humana a partir delas, e não como algo cool para fugir ou esquecer de uma ferida.

“Neo-human evolution”

Para finalizar, olhando para frente….Você tem alguma meta ou ambição que gostaria de compartilhar com a gente?

C.D: Bom, eu gostaria que de poder continuar crescendo como pessoa e fazendo melhor uma arte que refleta esse crescimento. Quero seguir oferecendo medicina através da minha arte, que possa chegar para muita mais gente e ajudar essas essas de alguma forma. Também quero continuar conectando redes na nossa comunidade de arte com alto nível de consciência. Sei lá..minha vida é uma benção nesse momento e olhando pró futuro…não posso pensar mais que em agradecer!

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