Sobre o valor das raízes musicais

Começa mais uma turnê européia! Esse já é o quinto ano seguido. Pode parecer que virou rotina, mas no momento complexo que vivemos nesse mercado psytrance, principalmente o brasileiro… essa é uma conquista muito importante e gratificante para mim.

Este ano fui convidado para alguns dos festivais que mais respeito na cena mundial:

Freqs of Nature Festival – Alemanha 
Lost Theory Festival – Espanha 
Boom Festival Official – Portugal
MoDem Festival – Croácia

Organizações que reconhecem e valorizam a importância do DJ em seus line ups, assim como fornecem um ambiente que não só estimula, mas também te força de uma maneira ou outra, a tocar sets diferentes do comum.

 width= O Boom Festival é essencial para qualquer pessoa que aprecie a cultura psytrance. Aliás, é essencial para qualquer pessoa no geral, pois ali é uma imensa escola da vida, em formato de cidade temporária com 35 mil pessoas. Com tudo fluindo pacíficamente. 

Em relação a este assunto, aproveito para refletir sobre um tema que considero relevante para todos nós. Aviso: tire um momento do seu dia para ler, pois não é uma reflexão rasa, com poucas palavras.

Pois bem, inicio o raciocínio com isto: se todo mundo quer sempre tocar o que há de mais novo e mais explosivo, isso de certa forma vai causar um certo tipo de uniformidade nas apresentações… e isso é o que temos visto com alguma frequência hoje em dia, na nossa cena.

Para efeito de comparação, cito exemplo do techno, onde vemos diversos artistas tocando músicas de 5 a 20 anos atrás, misturando-as com músicas recém lançadas, outras não lançadas e também aquelas do passado recente, entre 1 a 5 anos de lançamento.

Basicamente, utilizam o extenso catálogo de todas as músicas já lançadas no estilo, com o filtro do que é original e único, enfatizando seu valor musical e não somente sua qualidade técnica de áudio.

 width=Project Everglades Festival, Suécia.

Então fica a pergunta: será que não chegou a hora de reavaliar essa necessidade de só tocar músicas com qualidade perfeita, que vemos tão latente na nossa cena hoje em dia? Necessidade que também inclue interesse apenas pelo que é lançado agora e o que será lançado no futuro?

Nós temos uma discografia tão extensa e tão rica em todos os estilos de psytrance, mas por alguma razão, muita gente do público, dos organizadores e também dos artistas (DJs e produtores) não tem aquela vontade de acessar e apreciar as obras-primas que foram canalizadas no passado. Não que seja obrigatório, mas com certeza é algo que adiciona muito no nosso entendimento do estilo que apreciamos.

Essa semana mesmo vi um artigo sobre um artista iugoslavo de techno chamado Vladimir Ivkovic, que (pasmem) começou a pesquisar psytrance dos anos 90 para tocar em bpm’s mais baixos nos seus sets – alguns dos artistas que ele toca: Koxbox, Astral Projection, Man With No Name e Psychaos (aka Joti Sidhu, que já veio muito no passado para o Brasil).

Então até os caras que não são da nossa cena estão vendo valor nas coisas antigas, enquanto a gente mal lembra que elas existem, quanto mais toca elas por aí? Na minha opinião, isso é uma situação que mostra que alguma coisa não está muito equilibrada no nosso microcosmo…e que precisamos nos atentar e se possível, procurar melhorar.

 width=Progressive Festival, 2017. Mais um fruto do trabalho sério realizado por todo time da DM7 Bookings, que têm feito tantas coisas boas pela nossa cena, tenho muito
orgulho dessa família!

Conectar-se com aquilo que veio antes de nós, pra poder entender e vislumbrar melhor para onde estamos indo, é algo que considero como uma boa solução para o momento.

Muitos de vocês já dançaram músicas de 18 anos atrás nos meus sets e nem perceberam. Música boa é atemporal. O tão amado e especial artista israelense Cosma produz arrepios em nós até hoje, quando tocamos músicas de seus álbuns “Simplicity (2001)” e “Nonstop (2003)”. Isso mesmo, músicas de 17 e 15 anos atrás, respectivamente, de um artista que não mais está entre nós.

Assim como esses mencionados, também já existiram e foram lançados incontáveis álbuns, ep’s e compilações com diversas relíquias sonoras, músicas que inspiram e transmitem sentimentos impossíveis de se colocar em palavras… acima de tudo, músicas que são completamente adequadas para entrar em sets hoje em dia e não só nessa proposta de “old school” que têm sido usada.

A real galera, é que me preocupo para onde estamos indo com tudo isso. Todos sabem o quanto o mercado está viciado e dependente, não está fácil para ninguém (com algumas poucas exceções) e incluo nisso todo mundo mesmo de todas as partes da cena.

Eu não tenho problema algum com os sons para festas maiores e que se enquadram em uma proposta artística mais direcionada para pista. Tanto é que tenho amizades bem legais com produtores e djs deste estilo, tenho uma conversa super aberta e principalmente, muito respeito pelo trabalho deles nesse segmento.

 width=Momentos de dancefloor! Freqs of Nature, 2015.

O problema que tenho é com a falta de interesse em sons que saem dessa proposta, os que não são tão populares… uma cena saudável é equilibrada em todos os seus pilares, não somente em dois deles (no psytrance hoje, me refiro ao som noturno acelerado e ao progressivo diurno).

Essa falta de interesse é do público, o que pode soar clichê porque já foi falado tantas vezes, já existe há tanto tempo – mas é algo recorrente nessa cena, é algo que sempre precisa de atenção, é a realidade.

O público que direciona as ações dos organizadores, que por sua vez, direcionam o rumo da nossa cena. Porém, nós artistas podemos direcionar e influenciar o público. Não apenas podemos, mas é minha perspectiva atual, que devemos.

Devemos procurar influenciar o público, sempre que tivermos a oportunidade. Sair da regra, tocar coisas inesperadas aqui e ali, pesquisar e tocar raridades, coisas antigas, coisas não tão antigas, trazer referências de outros estilos, surpreender, arriscar, ousar, não ligar se vão dançar ou não… educar… lapidar.

Do contrário, continuaremos seguindo num caminho meio que à deriva, meio que seguindo aquele negócio de criar para atender uma demanda… o que na arte, acaba limitando muito o que pode ser feito.

Muitos dos meus colegas de profissão, tanto DJs quanto produtores, já sentiram ou sentem na pele, essa limitação. Você pode até se acostumar e a certo ponto esquecer dela momentaneamente por N razões, mas a limitação sempre vai se fazer presente em um ponto ou outro, ela não vai embora.

No fundo no fundo, eu só queria que essa limitação pudesse ser, de pouco a pouco, cada vez mais ignorada e colocada de lado. Primeiro pelos artistas e depois por nossa influência, pelo público.

Pode soar como uma utopia, mas eu acredito que se houvesse um esforço conjunto, isso poderia ser alcançado. É uma missão que precisa do máximo número de voluntários possíveis; uma missão que tenho certeza que o público também está pronto para participar.

Não que seríamos felizes para sempre depois, óbvio né! Mas seria uma conquista nunca realizada antes, nessa cena. Algo inédito.

E se querem um exemplo “vivo” disso, estudem a fundo o techno e sua evolução artística desde a origem do estilo até os dias de hoje. Isso não é impossível e eles, em conjunto, já o realizaram.

Temos tudo para seguir esse caminho… fica aqui meu incentivo para que cada um que sentir ressonância com essa mensagem, de fato se aliste como voluntário nessa missão.
A cena precisa de você, qualquer contribuição que seja, já será de grande.

 width=Universo Paralello, 2015 | Fotografia: Germano Rolim

Confira meu trabalho e o de outros artistas da gravadora Zenon Records: width=An electronic music record label run by Sensient specialising in
deep, 
intelligent and psychedelic music for the dance floor.

E na DM7 Booking:
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Agência brasileira especializada no management artístico
de 
grandes nomes da e-music.