Natureza Integrada: O Trance e a Filosofia Ecocêntrica.

“Somos dependentes das pessoas, pois somos uma espécie que vive em  grupo. Somos dependentes dos elementos naturais – terra, água, fogo e ar – que  garantem a vida no planeta. E, também dependentes de outros seres vivos como os  animais e as plantas dos quais também dependemos para sobreviver.” (RACHID,  2016).

Raves e festivais de música eletrônica são conhecidos por investirem  fortemente em ações que respeitem o meio ambiente. Geralmente a infraestrutura dos eventos é construída de forma ecológica com técnicas de bioconstrução e permacultura, e isso não acontece por acaso: o movimento Hippie, que posteriormente daria vida às primeiras festas eletrônicas, foi -e é- uma extensão dos primeiros movimentos ambientalistas da década de 70. Seus princípios são norteados por ações sustentáveis e pela filosofia do Peace and Love – atualmente conhecido como P.L.U.R (sigla em inglês para Peace, Love, Unity, Respect – Paz, Amor, União e Respeito). Parte dessas ações estão enraizadas na cultura Trance desde  o seu surgimento.

O P.L.U.R é uma sigla para uma espécie de filosofia de vida, que as pessoas têm a opção de seguir. Nesta filosofia de vida, seria preciso saber cultivar a paz individual e coletiva, cultivar sentimentos de carinho e amor para com o próximo, incitar a união entre todos e respeitar as coisas, meio ambiente e outras pessoas, independente de credo, raça, religião, gostos e opiniões. (ALVES; s.d).

Artista: Bruna Diniz/ @brumabruna

Os anos 70 foram marcados pelo início dos debates em torno dos primeiros  indícios de que o processo industrial colocava em risco a existência da espécie humana com o ecossistema, não apenas prejudicando as gerações atuais, mas também as futuras gerações. A Conferência de Estocolmo (1972), por exemplo, organizada pelas Nações Unidas, aconteceu na capital da Suécia com o objetivo de promover reflexões sobre a contaminação do ar, rios e mares, além de propor medidas para o controle da poluição.

Foi nesta época que o mundo se deparou, pela primeira vez, com o termo  “desenvolvimento sustentável”. O conceito resume-se a um conjunto de ações que englobam diferentes esferas da sociedade com o propósito de  gerir uma realidade mais consciente em relação aos pilares que a mantém:  econômico, social e ambiental – atualmente também são levadas em consideração os seguintes pilares: cultural, espiritual e político. Curioso que, por mais que a palavra seja associada diretamente ao meio ambiente, o  desenvolvimento sustentável visa criar métodos para gerar melhor qualidade  de vida para todos.

Artista: Bruna Diniz – @brumabruna

Adentramos o século XXI e novas preocupações passaram a ser discutidas. Se  antes os cuidados giravam em torno do meio ambiente, a partir de 2002 as preocupações foram direcionadas ao desenvolvimento social. O tema estava  relacionado às pesquisas que previam um crescimento significativo da  população mundial até 2050, cerca de 78% a mais em relação ao número de pessoas existentes na época (ONU, 2002). Em relação a isso, concluíram que, a longo prazo, se tornaria  insustentável cobrir as demandas entre produção e consumo, uma vez que, para  fornecer bens de consumo, seria necessário aumentar a extração de recursos  naturais.

O planeta Terra encontra-se em sua era geológica nomeada de Antropoceno, período marcado pela expressiva interferência do homem e seus efeitos expressivos no planeta Terra. O ser humano interfere no meio há mais de 200 mil anos, porém, desde a Revolução Industrial e o avanço do capitalismo, o impacto se tornou muito mais evidente. Na filosofia, a corrente de pensamento que apresenta o homem como indivíduo central no processo de entendimento do mundo recebe o nome de  antropocentrismo. Atualmente já nos deparamos com novos debates acerca de uma próxima era, a Ecocêntrica. Dentro dessa nova visão de mundo, o homem coexiste com o meio onde vive, suas ações éticas e morais colocam a natureza e o planeta terra como o centro de visão do mundo. O homem integrado à natureza, ambos  se desenvolvendo em equilíbrio.

Artista: Bruna Diniz – @brumabruna

O Trance, enquanto movimento visionário e de quebra de paradigmas, apoia esse tipo de respeito com o espaço onde realizam suas festas: a vivência psicodélica está além da música e da experiência individual, ela se manifesta também na forma como você se relaciona com o todo. Conscientizar-se da importância da educação ambiental dentro do nosso movimento e colocar em prática ações sustentáveis dentro e fora de nossas festas, abre caminho, inclusive, para termos mais inserção dentro da sociedade enquanto movimento cultural.  Isso nos leva à reflexão sobre o quanto as festas são mal vistas por grande parte da população por falta de conhecimento. Porém, quem procura conhecer todo universo envolvente das raves irá  perceber que os grandes eventos não se resumem somente a incessante música e pessoas dançando em frenesi.

E lembrem-se:
“Agora, uma oportunidade está sendo dada a você, para participar junto com outras pessoas, dando a sua contribuição para criar algo maior e mais belo do que cada um de vocês seria capaz de fazer isoladamente. Sua participação não apenas irá nutri-lo, mas, também, trará uma contribuição preciosa para o conjunto.”  – Tarô Zen de Osho.

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